sexta-feira, setembro 16, 2005

UM PAÍS DO FUTURO, SEMPRE ATRÁS DOS OUTROS




Outro dia estava vendo televisão, quando prestei atenção ao comercial mega-produzido da Companhia Vale do Rio Doce. À parte das imagens, foquei-me na letra da música, aquela que me parece ser do Jota Quest, e diz algo do tipo "vivemos esperando, o dia em que seremos para sempre, vivemos esperando, dias melhores pra sempre".
Parei para refletir sobre aquilo, sobre a frase "vivemos esperando dias melhores". Juntei a letra às imagens belas da propaganda, e logo em seguida às imagens tristes da realidade. Realidade das ruas, da esquina da sua casa, do seu trabalho, dos jornais, do Brasil.
É chocante perceber que a letra reflete exatamente toda a história de nós, sonhadores brasileiros, habitantes deste país que "um dia vai dar certo". Todos nós vivemos sonhando, sonhando com dias melhores, nos dizendo dia após dia "tudo vai dar certo". Somos um povo de esperanças, não um povo de realidade. O grande problema, é que a esperança nem sempre está relacionada somente com o 'por vir', e sim ao que está aí. Foi a esperança que colocou Lula no poder. Grande armadilha essa tal de esperança.
Falta-nos colocar os pés no chão e atribuir a realidade à nós mesmos. Quem dera que existisse no brasil qualquer pessoa digna daquele título de novela, "Senhora do Destino". Aqui ninguém é dono do próprio destino.
Não porque não pode sê-lo, mas porque não sabe sê-lo. Sempre jogamos a culpa nos outros, a responsabilidade nos outros, a corrupção nos outros, a ignorância nos outros - nunca em nós mesmos. Somos um dos povos mais desacreditados em si mesmos do planeta. Aqui, o amanhã sempre resolverá o problema de hoje. O passado é esquecido quando o assunto é lembrar erros (para consequentemente aprender com eles). Vivemos esperando, esperando, e nunca chegam os dias melhores.
Fomos educados a não darmos valor à nossa força individual. Fomos treinados a ficar em casa, e guardar a nossa indignação dentro das quatro paredes. Nas escolas, nenhum senso de ação em prol do público é passado aos alunos - isso no ensino privado. No ensino público, a desgraça é mais do que completa, a alienação é quase imposta aos alunos, que não são ensinados a ler ou escrever direito.
Para um povo que lhe é negado tudo, apenas não se pode negar-lhe a esperança. E nela então, apoiamo-nos todos.

TODOS NÓS SOMOS BURROS




Olá.
Inicio o meu retorno ao mundo dos blogs de maneira triste. A história a ser relatada reflete um dos principais males deste país, e servirá como pedra-fundamental deste empreendimento para que, tanto eu quanto você nos lembremos que toda mudança parte primeiramente do indivíduo. Seja bem vindo.
Hoje estava em sala de aula, em meio a uma discussão fervorosa sobre aspectos técnicos da aplicação de uma determinada prova, quando, em meio ao burbúrio geral, antenei-me sem querer em uma conversa paralela entre duas meninas, próximas de onde eu estava.
Quisera eu não ter me antenado. A personagem principal, de maneira muito infeliz, virou-se para a colega e proferiu, em tom baixo, a seguinte frase: "fique calma, você irá bem na prova. A maioria aqui é burra, todo mundo fica quietinho".
Essa menina, que logo em seguida começou a bradar sua visão de como deveria ser a prova, lembrou-me imediatamente dos poderosos deste país.
Parece uma visão maniqueísta querer comparar Brasília à universidade, mas essa frase, provinda da boca de uma inteligente menina, poderia muito bem ter vindo da boca de um Severino Cavalcanti, de um Lula, um Genoíno, um Jefferson, um Collor. Todos estes listados nos chamam de burros em todas as noites, nos telejornais brasileiros. A única diferença é que os políticos dominam a arte da retórica e da encenação, e nos agridem de forma disfarçada.
Já a pobre menina, que de pobre não tem nada, foi muito mais direta, talvez até mais honesta do que os nossos democratas. E constatar que ela realmente disse aquilo com plena consciência é de entristecer qualquer um. Pessoas já saem da graduação com pensamentos diminutivos em relação ao "povo" brasileiro - imagine o que não serão capazes de fazer caso assumam cargos de gerência pública.
Enquanto nós mesmos não mudarmos nossa visão do mundo, do país e do povo, como poderemos cobrar que outros mudem? Como dizer que alguém está errado, se nós mesmos não olhamos no espelho e percebemos nossas falhas?
Por mais doloroso que seja, esse processo de auto-crítica deve sempre ser feito. Por exemplo, uma das frases mais geniais que já ouvi, e que me ajudou a abrir os olhos para o racismo (infelizmente não lembro o(a) autor(a)), refere-se justamente ao tema.

_ "Só consegui combater o racismo quando aceitei que eu era racista."

Enquanto nos enganamos, a única coisa que fazemos é perder tempo. Para resolver qualquer tipo de problema, é necessário aceitá-lo. A partir daí, sim, combatê-lo frente à frente.