domingo, outubro 30, 2005

DIPLOMA DE JORNALISTA - Para pendurar na sala, ou no banheiro?




Antes de discutir-se a obrigatoriedade de todo jornalista possuir diploma, creio ser mais essencial discutir-se o que é o jornalismo. Nas grandes escolas de jornalismo brasileiras, parece ter-se perdido o sentido original de o que é ser jornalista, o que é formar um jornalista. Hoje, vemos estudantes entrando a rodo nesta cadeira, que um dia já foi local gerador de debates e idéias construtivas para o futuro do país e do mundo.
Nesses tempos em que as atrações principais da Internet são o orkut e o messenger, vemos "futuros jornalistas" aprendendo a ser reprodutores de uma técnica jornalística lead-corpo-páragrafo final. Todos estão mais preocupados em saber termos técnicos e corriqueiros do jornalismo, ao invés de angariar aquilo que é a essência de uma matéria jornalística, seja em qualquer mídia: o conteúdo.
As escolas de jornalismo dedicam pouco tempo ao "ensino" da cultura. O incentivo à leitura é mínimo. O treinamento para a repetição técnica é máximo. Os debates cada vez mais resumem-se às conversas de pátio sobre o jogo de futebol de ontem. Ninguém sabe quem são os grandes escritores, os grandes músicos, os grandes economistas, os grandes juristas, nem mesmo os grandes jornalistas. Hoje, os conhecidos são os galãs da televisão.
Não estou aqui condenando o ensino da parte técnica desta arte que é o jornalismo. Tudo que é bom tem a sua técnica. O problema é que às pessoas somente é passada essa parte, essa pequena parte que o mundo acadêmico tem condições de ensinar.
Pouquíssimas são as aulas em que os alunos simplesmente chegam, colocam suas mochilas e pastas embaixo da carteira, e começam a debater com o professor sobre algum assunto relevante da sociedade.
Menos ainda são as aulas em que livros e estudos críticos são analisados pelos alunos, em debates, em trocas de idéias aluno-professor-aluno. Hoje estão todos apenas preocupados em abrir o caderno e anotar que "retranca" é o nome de uma matéria dado nas redações. O pior é que os alunos saem de sala achando que estão por cima, que sabem tudo, que jornalismo é isso aí e estão prontos para o mercado de trabalho.
Talvez até estejam, visto que hoje em dia há pouco espaço para o jornalismo "romântico", por mais clichê que isso possa soar. Hoje vemos apenas reproduções e reproduções. Vemos matérias sobre o acidente em que o cachorro foi atropelado, em que a atriz quebrou a perna, sobre a abertura de uma nova lanchonete, e o pior, sobre "aquilo tudo que está acontecendo lá em Brasília". Até mesmo os temas de grande importância para o público são tratados de forma tão técnica, que parecem estar lá longe, longe dos nossos bolsos e de nossas vidas.
Diploma de jornalista deve ser obrigatório sim - mas não com esse tipo de ensino.

sexta-feira, setembro 16, 2005

UM PAÍS DO FUTURO, SEMPRE ATRÁS DOS OUTROS




Outro dia estava vendo televisão, quando prestei atenção ao comercial mega-produzido da Companhia Vale do Rio Doce. À parte das imagens, foquei-me na letra da música, aquela que me parece ser do Jota Quest, e diz algo do tipo "vivemos esperando, o dia em que seremos para sempre, vivemos esperando, dias melhores pra sempre".
Parei para refletir sobre aquilo, sobre a frase "vivemos esperando dias melhores". Juntei a letra às imagens belas da propaganda, e logo em seguida às imagens tristes da realidade. Realidade das ruas, da esquina da sua casa, do seu trabalho, dos jornais, do Brasil.
É chocante perceber que a letra reflete exatamente toda a história de nós, sonhadores brasileiros, habitantes deste país que "um dia vai dar certo". Todos nós vivemos sonhando, sonhando com dias melhores, nos dizendo dia após dia "tudo vai dar certo". Somos um povo de esperanças, não um povo de realidade. O grande problema, é que a esperança nem sempre está relacionada somente com o 'por vir', e sim ao que está aí. Foi a esperança que colocou Lula no poder. Grande armadilha essa tal de esperança.
Falta-nos colocar os pés no chão e atribuir a realidade à nós mesmos. Quem dera que existisse no brasil qualquer pessoa digna daquele título de novela, "Senhora do Destino". Aqui ninguém é dono do próprio destino.
Não porque não pode sê-lo, mas porque não sabe sê-lo. Sempre jogamos a culpa nos outros, a responsabilidade nos outros, a corrupção nos outros, a ignorância nos outros - nunca em nós mesmos. Somos um dos povos mais desacreditados em si mesmos do planeta. Aqui, o amanhã sempre resolverá o problema de hoje. O passado é esquecido quando o assunto é lembrar erros (para consequentemente aprender com eles). Vivemos esperando, esperando, e nunca chegam os dias melhores.
Fomos educados a não darmos valor à nossa força individual. Fomos treinados a ficar em casa, e guardar a nossa indignação dentro das quatro paredes. Nas escolas, nenhum senso de ação em prol do público é passado aos alunos - isso no ensino privado. No ensino público, a desgraça é mais do que completa, a alienação é quase imposta aos alunos, que não são ensinados a ler ou escrever direito.
Para um povo que lhe é negado tudo, apenas não se pode negar-lhe a esperança. E nela então, apoiamo-nos todos.

TODOS NÓS SOMOS BURROS




Olá.
Inicio o meu retorno ao mundo dos blogs de maneira triste. A história a ser relatada reflete um dos principais males deste país, e servirá como pedra-fundamental deste empreendimento para que, tanto eu quanto você nos lembremos que toda mudança parte primeiramente do indivíduo. Seja bem vindo.
Hoje estava em sala de aula, em meio a uma discussão fervorosa sobre aspectos técnicos da aplicação de uma determinada prova, quando, em meio ao burbúrio geral, antenei-me sem querer em uma conversa paralela entre duas meninas, próximas de onde eu estava.
Quisera eu não ter me antenado. A personagem principal, de maneira muito infeliz, virou-se para a colega e proferiu, em tom baixo, a seguinte frase: "fique calma, você irá bem na prova. A maioria aqui é burra, todo mundo fica quietinho".
Essa menina, que logo em seguida começou a bradar sua visão de como deveria ser a prova, lembrou-me imediatamente dos poderosos deste país.
Parece uma visão maniqueísta querer comparar Brasília à universidade, mas essa frase, provinda da boca de uma inteligente menina, poderia muito bem ter vindo da boca de um Severino Cavalcanti, de um Lula, um Genoíno, um Jefferson, um Collor. Todos estes listados nos chamam de burros em todas as noites, nos telejornais brasileiros. A única diferença é que os políticos dominam a arte da retórica e da encenação, e nos agridem de forma disfarçada.
Já a pobre menina, que de pobre não tem nada, foi muito mais direta, talvez até mais honesta do que os nossos democratas. E constatar que ela realmente disse aquilo com plena consciência é de entristecer qualquer um. Pessoas já saem da graduação com pensamentos diminutivos em relação ao "povo" brasileiro - imagine o que não serão capazes de fazer caso assumam cargos de gerência pública.
Enquanto nós mesmos não mudarmos nossa visão do mundo, do país e do povo, como poderemos cobrar que outros mudem? Como dizer que alguém está errado, se nós mesmos não olhamos no espelho e percebemos nossas falhas?
Por mais doloroso que seja, esse processo de auto-crítica deve sempre ser feito. Por exemplo, uma das frases mais geniais que já ouvi, e que me ajudou a abrir os olhos para o racismo (infelizmente não lembro o(a) autor(a)), refere-se justamente ao tema.

_ "Só consegui combater o racismo quando aceitei que eu era racista."

Enquanto nos enganamos, a única coisa que fazemos é perder tempo. Para resolver qualquer tipo de problema, é necessário aceitá-lo. A partir daí, sim, combatê-lo frente à frente.